domingo, 18 de maio de 2014

B: A CATEQUESE I Resumo da Bíblia


                 B: A CATEQUESE.

         OS MISTÉRIOS
DA FÉ
        DA ESPERANÇA
           E DO AMOR

                                     I. Resumo da Bíblia

                                     II. A Profissão da Fé               

                                    III. Os Sacramentos
    
 “A catequese se dirige às crianças. Desde o século XIX a pastoral da Igreja concentrou-se nas crianças. Por isso se deu prioridade absoluta às escolas católicas e à catequese infantil. Desta maneira, os adultos cristãos parecem infantilizados. Do cristianismo eles sabem o que lhes foi ensinado quando eram crianças. Nunca aprenderam o que significa ser cristão como trabalhador, cidadão, pai ou mãe de família dentro das circunstâncias e dos obstáculos reais da vida. O resultado é que os meninos educados na catequese católica se tornam evangélicos quando ficam adultos, porque a mensagem dos evangélicos é para os adultos e não para as crianças.A pastoral concentrada nas crianças não tem eficiência na nova sociedade. Já acabou fracassando no século XX.”

09.04.2007 Dr. José Comblin, Sacerdote, Teólogo,  Reside na Paraíba Brasil

Metodologia:
é o jeito de escolher diferentes meios para chegar aos mistérios da fé.
                                                                
1. Começamos sempre com o que já conhecemos o que já sabemos. A partir daí conduzir para a matéria nova, ou para os mistérios da fé.

2. Os meios:
►Dramatizar, desenhar, cantar, rezar, brincar, celebrar.

3. Analisar textos bíblicos:
►Ler claramente, num clima de silêncio;
►Analisar: Quais os personagens que falam e o que fazem?
Onde e quando acontece o fato? A quem se dirige a ação?
►Dramatizar ou apresentar o texto;
►Decorar as frases mais importantes;
► Desenhar ou fazer uma poesia.
► Como vivenciar hoje;

4. Perguntar:
► Saiba colocar as perguntas certas. Não use perguntas induzidas.  Ex: Jesus é de...
► Pergunte dessa forma: De onde Jesus vem?
Quando você não recebe resposta, será que a pergunta não foi difícil demais? Deixou de colocar informações, ou a pergunta não foi clara?
► Não jogue a culpa no catequizando quando não recebe respostas. Analise as perguntas.
► Evite dizer que a resposta está errada, procure sempre corrigir a resposta.

5-   O que puder fazer em grupos, faça em grupos.

Pedagogia:
 é o jeito de educar ou conduzir as pessoas (ped = criança, e agogo= conduzir), “exemplos atraem”, o/a catequista introduz as pessoas nos mistérios da fé. Assim ele/ela é um “mista gogo” (mist = mistério eagogo=conduzir).Um ninfagogo conduz a noiva (ninf) ao noivo.

1. Catequese não é uma escola, por isso falamos encontro: catequista não é professor nem tia, e o/a catequizando não é aluno. Chama as pessoas pelo nome.
Um círculo destaca a igualdade entre catequista e catequizando.      Ligar catequese sempre com a vida.

2. Perturbações têm preferência: Problemas, brigas, conflitos, fatos importantes devem ser resolvidos antes de iniciar a catequese.

3. Sempre começar o encontro com a repetição do encontro anterior.

4. Evitar pessoas preferidas. Sempre tem o perigo de se preferir algumas pessoas, outras não se gostam tanto, por que são menos inteligentes.

5. Dar mais atenção às pessoas, que têm um comportamento estranho, isto significa que ela não é bastante amada, não excluí-la, dedicar mais atenção a ela.

6. A palavra catequese vem do grego: cat-eque-se. A raiz da palavra“eque”é“eco”.  Eco é uma ressonância. A revista para o catequista se chama: “Ecoando”. O catequista muitas vezes fala e fala e não presta atenção, se a palavra dela/dela tem um eco no catequizando,prestou atenção e entendeu. A catequese deve ser um diálogo, não um monólogo.




   Resumo da Bíblia

Nos estudos bíblicos eu sigo a Bíblia hebraica, chamada TEB,  ¨Traduduction Oecuménique  dela Bible¨ (TOB), comum  às diversas confissões cristãs e não a tradução grega, Septuaginta LXX, normalmente usada. Também eu falo do Primeiro e do Secundo Testamento, não mais do Antigo Testamento, que seria uma desvalorização das promessas de Deus a Israel e aos todos os povos.

                  
    As fontes:

  I A Tradição profética (E/J e D)
      Após a destruição de Samaria 722 a.C. levitas levaram a fonte E para Jerusalém, onde foi unida com a fonte J. 
       O  Dtr (1e2) ( Deuteronomista)  é uma obra histórica a partir de Gênesis 2,4 até 2 Reis 25. O centro da obra dele é o livro: “Falas de Moises”, chamado Deuteronômio, o que o sacerdote Hilquiáhu  no ano 622 encontrou  no templo .(2Rs 22,8).
    Jeremjas, o profeta e Baruc, o escritor ou colaboradora, são os autores desta fonte  Dtr e D.
Eu para facilitar chama esa fonte: tradição profética.

A criação da humanidade (Adão) começa com a caída do homem e da mulher (não se fala do pecado original) e como Javé busca os perdidos.O primeiro pecado é o fraticínio: Cain mata Abel.


 A Torá: significa ¨guia no caminho¨ ou instrução
Javé firmou uma aliança conosco no Horeb: ele falou convosco face a face (Dt 5, 2-22) estas palavras. São dez palavras e não mandamentos, Javé não manda ao seu servo, muito mais admoesta ao seu parceiro. As leis, preceitos e costumes não se apresentam na forma literária de um código de leis, mas são um ensino acompanhado de exortações, apelos e advertências. O amor ao irmão ultrapassa qualquer lei.
 Por causa das leis, preceitos e costumes a Septuaginta (LXX) traduziu “As falas de Moisés” por “Segunda Lei” (Deuteronômio cap. 12-26).
A LXX fala de Josué, Juízes Reis etc. a Bíblia hebraica fala dos primeiros e últimos profetas. O atributo mais importante de Javé: a justiça que significa ter misericórdia, compaixão, perdão e não castigo.

O nome de Deus:
O nome do Deus de Israel é JHVH: Eu estou ou estarei (com vocês), não é um ente filosófico que está além da história, pois ELE acompanha seu povo eleito na história. O judeu não pronuncia o nome DELE, pronuncia ¨o Eterno¨, a LXX traduz: kýrios, Senhor. Martin Buber, que refletiu sobre a relação do Eu e Tu, traduz JHVH por EU, quando Javé fala ou ELE quando se fala de Jahwe.
O lugar, onde Javé  mesmo fala, é o monte: Horeb (veja Mt 5,1; 17,1;28,16). Moisés,  o profeta, transmite estas palavras ao povo,   ele é modelo autêntico de um profeta (18,9-22).
Jesus segue a tradição profética, as ´Falas de Moisés´ e dos  Videntes (profetas).  

  Os Profetas Nabim  (NA): Videntes e Mensageiros
A redação dos livros proféticos
A tradição judaica distingue entre primeiros profetas, - Josué, Juízes, Samuel e Reis que geralmente são chamados livros históricos e os últimos profetas, que são Isaias, Jeremias, Ezequiel e os doze profetas menores.. A Septuaginta (LXX) traduziu o nome Nabi com a palavra grega: profeta. A palavra profeta vem de Profemi – feme – fama - eufemia que significa vaticinar, predizer. Assim parece que o profeta prediz o futuro. O título de Profetas suplantou o termo ¨vidente¨ (1Sm 9,9) e ¨homem de Deus¨ a partir do século II a.C.
Enquanto os livros da Torá contam  a história de Israel até a entrada da terra, os livros de Josué e Juízes até 2 Reis contam a posse da terra e criticam a instituição da realeza. Em geral  a fonte profética usa os termos ´tribo, povo e Israel´ (am) em diferença aos outros gentios (goim), não pode traduzir por ¨pagãos¨, que é um termo do IV sec.  d.C.
  A última redação da Torá com os acréscimos da fonte sacerdotal houve nos tempos dos Persas em torno de 400 a.C. Neste tempo a Torá foi separada dos primeiros profetas. Ao mesmo tempo os últimos profetas encontram sua redação final, caracterizados pelas promessas para o futuro. Em 398 a.C. aconteceu a promulgação da Torá por Esdras em Jerusalém (Ne 8). Esdras é o novo Moises.
A vocação dos Nabim: Videntes e Mensageiros
Exemplo e modelo para o profeta é Javé mesmo: Ele vê, o texto reforça: Ele enxerga  miséria do seu povo! Ele ouve e mais forte: escuta o grito dos escravos!  Ele tem misericórdia, desce e liberta.  (Ex 3,7-10).
O essencial de um profeta consiste na sua vocação por Deus. O profetismo não é uma instituição humana como a realeza ou o sacerdócio, marcados pelo poder. “Pois Javé Deus nada faz sem revelar seu segredo aos seus servos, os profetas.  Javé revela a Abraão o que vai fazer (Gn 18, 17-19). Javé Deus falou quem não profetizaria?” (Am 3,3-8) Javé pergunta: “A quem hei de enviar, quem irá por nós?” Isaias prontifica-se: “Aqui estou, envia-me” (Is 6,8). Jeremias: Sua vocação (1,5). “Forçado por tua mão” (Jr 15,17 e 20,9). No Segundo Isaias Deus fala assim: “Não falei em segredo, não disse a descendência de Jacó: ‘Procurai-me no vazio’... quem fez isto ouvir no passado? Não fui eu, Javé?” (Is  45,18-21).
As mensagens dos profetas:
Desde Samuel (1 Sm 8) até à ruina de do reino de Norte (2Rs 17) e do reino do Sul os profetas criticaram os reis que fizeram o mal aos olhos de Javé (2 Rs 24,19). Só o Rei Josias defendia o direito e a justiça (Jr 22,15-16).
Sempre eles defendem os pobres da terra, os humilhados e desprezados como Amos, Sofonias (cap.2) e outros. Eles exigem justiça aos injustiçados, porque Javé é justo.
Oséias chama Javé o Santo, ¨ não sou masculino¨ (isch=homem, ischa =mulher, não Adão), Javé não tem  gênero, ELE é aqui como uma mãe que levanta uma criancinha no rosto (Os.1-11).
Jeremija, brutalmente perseguido pela elite, porque prediz a ruina de Jerusalém, para adorar Javé não precisa um estado.

II O Isaias (550=539) argumenta que Javé não é só o Deus de Israel, mas um Deus universal, só há um Deus, os outros deuses são ídolos. Em vez de um rei Javé escolhe seu servo (Is 42;  49; 50;
No ultimo canto (52, 13-53, 12) o servo é vitima de todos, bode expiatório, mas terá êxito. O versículo 53,10 merece atenção: mesma  a TEB traduz: “O Senhor quis triturá-lo pelo sofrimento. Exatamente isto pensava- se nos versículos 4 e 5: ”Nós o considerávamos  atingido, golpeado por Deus e humilhado´´. Precisa  corrigir o texto e traduzir: “Javé quis para si seu triturado pelo sofrimento” Outra tradução: Javé se comprovou em seu triturado pelo sofrimento. Sempre se pensa que o mal vem de Deus.
O Isaias III aparece entre os anos 537 e 520: Uma parte dos exilados voltara de Babilônia e a elite está envolvida na reconstrução do Templo e de Jerusalém. Isaias III, ungido da Espírita Santa (61,1-3) para levar alegre mensagem aos humilhados, critica a reconstrução do templo, porque Javé não mora num templo com o Santo dos Santos como  pensam os sacerdotes, ele habita na eternidade e cujo nome é santo. O céu é seu trono, a terra o escabelo dos seus pés: “Qual é a casa que haveríeis construir para mim? Mas é para este que olho: para o humilhado, que tem o espírito abatido (66,1- 2). Cf. Salmo 112
Is 2,2-5  é pós-exílio e  pertence ao III Isaias (Bíblia pastoral).   O mesmo texto de Miquéias 4,1-3; deve ser pós-exílio. Israel tinha experimentado as brutais guerras e conquistas dos Assírios e Babilônicos e espera agora o tempo da paz.  A montanha da casa de Javé será estabelecida no cume das montanhas, lá Javé falara não no templo. (Is 66,1). De lá vem a instrução (Torá) para todos os povos.     
Iluminada por Deus Sião, Jerusalém, iluminará o mundo (60). O profeta não menciona um templo nem sacrifícios nem um rei, mas pensa nos habitantes da cidade. Sião não é mais um lugar, mas uma pessoa, a esposa de Javé, a rainha do rei Javé:  “Sião do Santo de Israel”. Jerusalém encontra o seu esposo: “teu criador casará você” (62,5).
Zacarias II  cap. 9-14
Os autores dos capítulos 9 - 14 estão situados ao lado das autoridades de Jerusalém e não ao lado dos pobres da terra. Depois de Neemias e Esdras o projeto sacerdotal Sadoquita, que continua no tempo dos Gregos e dos Romanos, não dá espaço para profetas, os sacerdotes em Jerusalém têm o monopólio da profecia. Profecia deve passar pelo Templo e pelo Santo dos Santos. O sacerdócio santíssimo do Templo não admite contradições ou criticas. Para o herético a fogueira ou neste caso a espada.
 A profecia sempre foi uma característica do povo da terra que não concordava com a elite da cidade, por mais santa que pudesse ser. Agora fora dos limites sagrados só terá heresia e impureza.  “Expulsarei também da terra os profetas... (13,2-6) Jerusalém e a casa de Davi são o lugar de perdão, de purificação, lugar da água viva. Pelo contrario a terra: ela é o lugar da idolatria, dos profetas (a serem expulsos) e do espírito de impureza.
A memória de Jesus pode ser a chave da verdadeira releitura desses capítulos:  A entrada de Jesus em Jerusalém: Zc 9,9 > Mt 21, 12-13; A saída dos vendedores do Templo: Zc 14,21 > Mt 21, 12-13; As trinta moedas: Zc 11,12-13 > Mt 26,15; As ovelhas: Zc 10,2 > Mt 9,36; O bom pastor: Zc  13,7 > Jo 10;  A morte do pastor: Zc  13,7; O traspassado: Zc 12,10 >Jo 19,37; Ap 1,7; (Ribla 35, p.235)
Veja também a lamentação de Jesus sobre Jerusalém Mt 23,37-39 e Lc 13, 34-35.
           

  II A fonte sacerdotal (S ou P)

   P  omite muitas contas de J/E:
       Jeremias e o Deuteromista conheciam a fonte P (S)  O sacerdócio aaronita que criou a fonte P,  tinha inimigos, os levitas. O rei Ezequias (2 Rs 18,1) vivia 716-687,  foi um rei ideal para os sacerdotes aaronitas, para D o Josias é o ideal. O nome do autor de P fica desconhecido, ele pertence ao sacerdócio aaronita, as contas são de uma pessoa, as leis podem ser de diferentes fontes. O autor concebeu sua obra como alternativa à fonte J / E.
         Em S (P) não se encontra misericórdia , graça, fidelidade, arrepender-se como em J/E. Em P Deus é justo e exige sacrifícios para a reconciliação.
             

       A Criação segundo a fonte sacerdotal  (Gn 1, 1-2,4a)

 A elite de Jerusalém, entre ela  sacerdotes e escribas, se encontra no Império Babilônico 587 a.C. num  ambiente urbano com os templos e Deuses deles: Marduk, que luta contra as potências da morte, chamado Tiamat. A elite, os sacerdotes, vêem os grandes edifícios, os templos, - construções dos homens: ¨Agora, nada do que projetarem fazer lhes será inacessível¨ (Gn 11,6).
 Em contraposição os sacerdotes colocam  um templo não feito pelos homens: a criação. Ela é efeito da palavra de Deus, A terra era “tohu wabohu”, deserta e vazia e havia treva. “Ruach de Deus” pairava na superfície das águas. Ruach, o sopro ou  atmosfera, é aquilo que possibilita a vida, uma força feminina ou materna. Num mito oriental havia a imaginação de uma galinha que choca o ovo do mundo.  A ruach é o lado de Deus voltado à criação.
Dez  vezes  Deus disse: Seja a luz, que haja um firmamento, se separem as águas, a terra se cobra de verdura,  que haja luminares, ... e sempre acontece. Os autores já pensam em evolução, como hoje em dia os cientistas falam?
Este escrito sacerdotal faz surgir os seres e a vida dentro do quadro litúrgico da semana (TEB). Os dias um, quatro e sete polemizam contra os ídolos dos povos e enfatizam o ritmo das festas e a observância do Sábado.
   Após a volta da elite a Jerusalém começou a reconstruir o templo. O terceiro Isaias se opõe a este projeto: como construir um templo?  O céu é seu trono e a terra é escabelo dos pés  (Is 66).
               A benção dos seres humanos foi sempre mal interpretada na tradição do Ocidente, parecia uma ordem de dominar e explorar a criação até a sua destruição. Assim ensinou Francis Bacon (1623 d.C.) , chamado profeta da era industrial,  a elite britânica: que a terra não é uma mãe que dá vida a quem nós devemos respeito como em várias religiões mas a natureza serve a ser submetida e explorada.
Porém: a benção se dirige às pessoas exiladas em Babilônia sem esperança, sem futuro: Reproduzi - vos! Não ficar estéril no cativeiro (veja Is. 54,1-10). Multiplicai – vos! O medo dos exilados, não ter herdeiros e com isso perder a história.Povoai a terra! Agora são desapossados, fora da terra de Israe Submetei! Agora eles são escravizados em Babilônia, porém vão ganhar liberdade. Dominai! Não mais ser dominados, mas donos da terra.
            As bênçãos se repetem sobre Noé saindo da arca (Gn 8,17 e 9,1), sobre Ismael (Gn 17,20), Jacó (Gn 28, 1 – 4) e José (Gn 47, 27).

              As genealogias garantem a continuidade do povo na história, “das gerações em gerações”.  O sinal seria a circuncisão. A comunidade é a assembléia “quahal”: Os sacerdotes do exílio não usam mais o termo povo, em vez falam da quahal, da comunidade dos ”filhos de Israel” no mundo. Os filhos de Israel se reúnem na sinagoga, lugar de oração e reflexão da palavra de Deus. O termo filhos de Israel aparecem 24 vezes em Ex 25-31, 13 vezes em Ex 35-40, 53 vezes em Levítico e 54 vezes em Números.  O Sábado: Na diáspora não era mais possível visitar o templo, por isso insiste- se no Sábado, como tempo sagrado a Deus.

 A Torá se torna agora  uma Lei, que exige punição e reparação por sacrifícios.. Os escribas dos Sacerdotes Sadoquitas elaboraram a Torá definitiva no tempo dos Persas. Esdras será o novo Moises Começa a observância rigorosa da lei da pureza pela qual os filhos de Israel são os santos, separados dos povos, dos pecadores.
A santidade de Javé significa agora separação do povo pecador, se aproximar dele significa morrer. O culto está separado do profano, Javé partilha o sacrifício com os sacerdotes (Lv. 22,2-16). Sobre os sacrifícios veja Lv. 1-7, sobre o código sacerdotal: Javé é santo, veja Lv. 17-24.
Javé exige seus direitos. Só os sacerdotes como intermediários entre Deus e povo podem reconciliar o pecador com Deus através de sacrifícios. Javé se torna um Deus terrível que ameaça o povo.
 Javé fala agora da Tenda  ou do Templo:
O livro Levítico começa assim: “Javé chamou Moisés e da tenda do encontro falou-lhe dizendo. (Lv 1,1).  Javé  não fala mais do Monte Horeb como na fonte profética, mas é a tenda com a arca  “Lá eu te encontrarei, e do alto do propiciatório entre os dois querubins sobre a Arca do Testemunho, comunicar-te-ei todas as ordens” (Ex 25,22). A tenda é o lugar de  dar ordens aos sacerdotes.
O sumo sacerdote (Ex 28,36) é consagrado a Javé:
    O título “o povo consagrado a Javé” (Jeremias 2,2-3 e Dt 7,6)  passa a ser monopólio do sumo sacerdote. O sumo sacerdote será o único ungido (Ex 29,7) e substituirá a dinastia de Davi no poder.
                A roupa do sacerdote (Ex 28,29) As roupas são exclusivas do novo rei, que ungido reina em Judá e representa o rei Javé. O “Efod” sustentado por duas ombreiras com os doze nomes de Israel., no meio agarrado por anéis de ouro, o “peitoral de Julgamento”. O sumo sacerdote representa agora uma pessoa coletiva, ele é o povo. A figura do sumo sacerdote agiganta-se. Outra peça é o manto, cuja orla inferior tem campainhas: quem ouve tilintar os sininhos , não pode se aproximar “para que não morra”. (Ex 28, 33-35). O ponto alto das roupas será a flor da consagração, amarrada ao turbante consagrado a Javé. (Ex 28,36).         
Para viver a aliança no conceito sacerdotal, bastaria cumprir ritos e gestos litúrgicos e respeitar templos e lugares santos. Romper as leis significa pecar. O Êxodo mudou de sentido.
  O sacerdote assume o titulo rei, veja o excessivo louvor ao sumo sacerdote Simão (Sr 50)   A palavra de Deus, pronunciada pelos profetas (Dt 18,18), está agora no poder do sumo sacerdote: ele fala e ordena (Ex 25,22). Acabaram os profetas, só continuam falsos profetas.
Os Sacrifícios  pelos pecados por inadvertência Lv 4,3 – 5,13
O nariz de Deus: Já não se trata mais do Deus que fala que ordena e se relaciona: agora aparece uma divindade que se agrada com  aroma daquilo que é queimado, que participa dos rituais. Esta divindade não pede para ser obedecida, mas quer ser agraciada pelo perfume bom daquilo que a comunidade oferece.
Leis sobre a pureza: Lv  11 – 15
A noção de impureza está bem próxima a de “tabu”, ela supõe que a pessoa quer viver uma vida estável, protegida da angustia do desconhecido. Precisa evitar tudo o que é anormal. A impureza não é um ato culpável. O ato culpável acontece, quando o impuro se comporta como puro, quer dizer transgride os limites. A lei da pureza tem como ponto de vista o culto, relaciona estas leis com o Deus da aliança (11,44-45). A distinção entre puro e impuro não é uma coisa da higiene ou da ética e sim da distinção entre sagrado e profano. Somente o puro tem acesso ao templo. Veja no NT Marcos 7,1-23; Atos 10 e 1Cor 6,12-20.
 Código da santidade 17 – 24:
O código se dirige não a uma entidade política e sim a religiosa, as leis são ligadas ao culto e ao clero. Isto corresponde ao projeto dos Persas nesse período de 445 a.C. ”Era a lei, suplementada pela administração persa, e era o sistema de santidade sacrifical e ritual centralizado no templo”.
O ponto mais alto do Levítico será o capitulo 19: ”Fala a toda a comunidade dos filhos de Israel: sede  santos, pois eu sou santo, não sejas rancoroso aos filhos do teu povo: é assim que darás amor ao teu próximo, ele é como tu” Lv 19,18.
O termo Santo significa agora ser “separado” dos outros, do mundo.  Assim Deus é separado do mundo.  Deus separou os Israelitas do Egito, da casa da escravidão, para agora ficar presente diante de Deus. Observa: que não se promete  mais a terra, a maioria vive na diáspora como estrangeiros, lá eles estão presentes diante de Deus e toda criatura, um novo universalismo.  “Eu sou Javé, não profanareis o meu santo nome, a fim que eu seja santificado no meio dos filhos de Israel. Eu sou Javé, que vos santifico, Aquele que vos fez sair da terra do Egito, a fim de para vós ser Deus, eu sou Javé” ( Lv 22,31 – 33)
Toda a tradição crista  traduz: Amar o próximo como a ti mesmo. Mas eu não posso me amar a mim mesmo. O amor é mútuo, se dirige a outros. Ao menos precusa ajuntar o verbo: como acontece a ti mesmo. O hebraico não fala amar “o” próximo, mas sim “ao” próximo, também não “como a si mesmo”, mas sim “ele e como tu”  Martin Buber traduz: ¨Ele é como tu¨ O próximo é o concidadão.  A exegese judaica antiga compreendeu às vezes Lv 19,18 da seguinte maneira: “Amarás o teu próximo como a outro tu mesmo”. (Introdução: Sirácida TEB p.1714)
             “Trata o migrante como um nativo, como um de vós, amá-lo-ás, ele é como tu; pois vós mesmos fostes migrantes na terra do Egito” (Lv 19, 34 e Dt 10,19)). Como Israel experimentou a escravização no Egito, não escravize agora os migrantes, os estrangeiros. Não se trata de uma lei, mas de um pedido, de uma advertência como nas Dez Palavras. (Erich Zenger: Am Fuß des Sinai, 1993 citando a tradução de Martin Buber).  Há duas declarações: uma positiva: amar ao outro, porque você foi amado e uma negativa: não retribua  o mal que você sofreu do outro. Quem não foi amado, não pode amar, ele não sabe, o que é amor. O que ele pode: não se vingar e  repetir o mal que sofreu.
               A Máxima, chamada “Regra de Ouro”:  O que  queres para ti, faça ao outro.                                       
            O chinês Confúcio 551-479 a.C. foi um dos primeiros a articular a regra de Ouro. Seus discípulos devem cada dia praticar este ensino, o mais importante para a vida, chamado <ren>. A religião não pode ser separada do altruísmo, tratar o outro com absoluto respeito. No Canon Páli o “Buda” Gautama, nascido por volta 563 a.C. na Índia se diz: “Como eu sou, estes são; como estes são, sou eu. Se assim um homem se iguala ao outro, não quer matar ou se deixar matar”. “Respeitando a mim mesmo eu respeito o outro, respeitando o outro eu respeito a mim mesmo”.
            O pai Tobit ensina o filho: “O de que não gostas não o faças a ninguém”. Tobit 4,15. Rabi Hillel (30 a.C.-9 d.C.) repete esta regra argumentando, que esta regra é toda a Torá, o resto é explicação. 
            O Evangelho de Mateus confirma esta regra: “Portanto, tudo aquilo, que querei que os homens  façam a vós, fazei-o vós mesmos a eles: esta é a Lei e os Profetas” (Mt 7,12).
            As tradições de Maomé (Hadithe) ensinam: Ninguém é um muçulmano verdadeiro enquanto não deseja para o seu irmão o que deseja para si. “Deseja aos outros homens, o que desejas para ti”.   


    A união de J /E, P e Dtr, pelo redator Esdras 

              O redator foi um dos sacerdotes aaronitas. Ele começou os quatro partes da sua obra com contas de P. Ele usou documentos sacerdotais, o livros das genealogias. Ele adicionou próprios textos no estilo de P.

     O autor de P é diferente do redator.  No tempo do secundo templo os sacerdotes aaronitas tinham o poder,  Esdras foi um deles. Na Bíblia duas pessoas são legisladores: Moisés e Esdras. No tempo de Esdras se pensou, que todas as fontes são de Moisés. Por isso foi necessário, unir todas estas fontes numa só edição. Promulgação da Torá Ne 8


III Os demais livros:  Ketubim (K) ou Escritos

                    História:  O  Império grego   331-63 a.C.
            Alexandre Grande de Macedônia, educado por Aristóteles, tinha 22 anos quando conquistou o mundo dos Persas, em 332 ele ocupou Ásia menor, Síria, Egito, Pérsia até a Índia. No Egito ele fundou a cidade Alexandria, um centro de arte e ciência, um refúgio para os judeus e mais tarde para os cristãos. Com 33 anos Alexandre morreu na Babilônia. Seu império foi dividido entre os Lágidas ou Ptolomeus no Egito e os Selêucidas na Síria e Babilônia. 300 a.C. foi fundada a capital da Síria, chamada Antioquia

A filosofia no Helenismo
O conceito de Deus: No Helenismo continua a religião popular centralizada no Olímpio, onde moram os deuses. Havia muitas mitologias. Mas o mercado livre e internacional precisava de uma filosofia unificadora. Sócrates, Platão e Aristóteles criam uma filosofia onde na ponta da pirâmide fica um só Deus.
Os atributos deste Deus são: perfeito, onipotente, onisciente, eterno, infinito, isolado da história. Platão dizia: Deus é a perfeição e o bem, assim ele é o exemplo para os homens. Este Deus perfeito não tem necessidades, ele não precisa de nada, ele é autossuficiente .Aristóteles dizia: Deus  pensa em si mesmo. “Para um homem autárquico (autossuficiente) é característico, que não precisa de homens, que são úteis, que dão prazer ou convívio. Para Deus é suficiente a sua própria autoconsciência. Mais claro fica isso em relação aos homens: Deus não precisa de nada, nem de um amigo e ele mesmo não pertence a um dono”. É absurdo pensar: eu amo Zeus. A perfeição do homem seria a sua consciência de seu valor.
  O direito natural <nómos>: Este direito natural pode conhecer-ser pela razão independente da fé.  As idéias são eternas, a matéria passa. A alma é indissolúvel, o corpo dissolve-se. Esta ideologia se concretiza na sociedade hierarquizada: Na terra o imperador representa este Deus: “Não é bom se muitos dominam, só seja o imperador”. A alma deve governar o corpo, isto é uma lei da natureza, o homem deve governar a mulher, o pai o filho, que só é um retrato do pai, o dono o escravo, ele é escravo de natureza.  (Aristóteles)   A elite, livre, deve praticar a sabedoria (prudência), o soldado deve praticar a coragem e o escravo a disciplina (moderação) (Sr 33,25). A justiça coordena estas classes. Sb 8,7 cita estas virtudes cardeais: “moderação, prudência, justiça e coragem”.
         
A Cidade e o comércio no Helenismo:
A base do Império grego é a cidade, a <polis>, de lá vem a palavra: política. Os homens livres são elementos centrais, a mulher, o escravo, o camponês são periféricos. Na cidade de Atenas cada pessoa livre tinha seis escravos.
Cada cidade disputa a hegemonia comercial: a riqueza não vinha do produto em si, mas do seu valor comercial. O estado só está em serviço das cidades e das grandes rotas comerciais na terra e no mar. No Império persa o ouro foi um tesouro mítico, guardado nos templos, um meio para conservar o valor, agora o ouro é um meio de pagamento, uma moeda, que circula no mundo. Desenvolveu-se uma economia global. (Dn 3) Fora das cidades existiam as colônias para produzir e aumentar o volume do produto, o trabalhador é pura ferramenta e pode ser comprado ou vendido. Para todo o mundo o Helenismo significa escravidão.

O Judaísmo no tempo do Helenismo

            No início do segundo século o tesouro do templo estava cheio de ouro e prata. Nos anos 246  até 221 aC. a exploração do povo camponês tinha aumentado. Enquanto os Persas tinham exigido um tributo de 15 a 20 %, os gregos exigiram mais de 30 %.
Judá gozava de novo certa autonomia com vários privilégios. Já tinham muitas comunidades judias na diáspora (dispersão). A mais importante comunidade foi Alexandria no Egito, com uns 300.000 Judeus e Antioquia com uns 50.000 Judeus.
            O Judaísmo estava dividido na prática da religiosidade: Uns ficaram fiéis às tradições, que são os “chassidim”. Em Judá se lê primeiro a Torá em hebraico depois segue o comentário em aramaico, a língua popular no Oriente. Os escribas (rabi) fazem este comentário de cor que se chama Targum, com o tempo se dá uma atualização da Torá escrita, chamada Alaka (caminho).
 - Outros que vivem no estrangeiro são mais abertos ao Helenismo, são os liberais. Os judeus da diáspora não falavam mais a sua própria língua, mas o grego, por isso a Torá, ainda não os profetas, foi traduzida na língua da “Oikumene”, não antes de 250 em Alexandria: a Septuaginta LXX. O nome de Javé foi substituído por KYRIOS ou SENHOR. Muitas palavras hebraicas ganham um novo sentido.
A LXX é só usada pelos autores cristãos. Mudou a seqüência dos livros: os livros dos primeiros profetas são agora os livros históricos, inserindo Rute, Crônicos, Esdras, Neemias, Ester. Seguem os livros de sabedoria com Jó, Salmos, Qohelet, Cânticos. Seguem os profetas com Daniel. A LXX inclui livros deutero-canônicos como o livro de Eclesiástico (Sirácida). Os judeus se distanciaram da interpretação dos cristãos e voltaram a Bíblia hebraica.

            O confronto com a nova política em Jerusalém:
Um só Imperador, um só deus, uma só cultura foi o lema da política grega: O Império dos Selêucidas  exige um só culto, uma só religião.1  Mc 1,41 relata: O rei Antíoco IV Epífanes ordenou que em todo seu reino todos os seus povos formassem um único povo e renunciassem aos seus costumes, todas as nações se conformassem às prescrições do rei.
Nos anos 150 Jerusalém é uma cidade grega com costumes e cultos gregos. O camponês ficou pobre: o que ele produzia era insignificante para o mercado grego. Mesmo oprimido o camponês ficou tranqüilo. Mas isto mudou quando a aristocracia sacerdotal de Jerusalém começou uma dura disputa pelo controle do mercado da cidade..
O rei Antíoco IV Epífanes tomou partido pelo grupo helenizante e quis ficar com o ouro do templo para pagar uma dívida aos romanos. A intervenção de Antíoco foi violenta e descabida (1Mc 1,20-64). O ponto culminante aconteceu quando Antíoco colocou sobre o altar dos holocaustos a estátua de deus Zeus: “a Abominação da Desolação” no ano 167 (1Mc. 1.54).
Começou a revolta dos Macabeus com o sacerdote Matatias, cujo avô se chamava Asmoneu. Em 164 o templo foi conquistado e purificado (festa da dedicação). O título do sumo sacerdote foi agora comprado (veja os Macabeus), os sacerdotes serviam como a agência do Império. Os Macabeus com a ajuda de Roma ganham a independência dos Sírios 142 – 64, na chamada dinastia dos Asmoneus. Os Hasmoneus juntam o poder real com a função de sumo sacerdote. O grupo dos fariseus não concordava com esta política.
Neste tempo se retiraram judeus religiosos, os “Essênios”, para o deserto, “Áraba”, rejeitando o comportamento dos sacerdotes no templo.
 Os Romanos se aproveitaram dos Judeus para apaziguar a Síria. No ano 64 Pompeu rebaixa a Síria e em 63 as.C. ele toma Jerusalém. Assim acabaram as pretensões dos Macabeus. No ano 50 existe um clima de conflito: Hircano II é sumo sacerdote, Mas seu ministro Antipater (idumeu) dirige o pais. No ano 37 Herodes Magno, filho de Antipater, toma Jerusalém e reina como vassalo de Roma até 4 a.C.

Canonização da TANAK:

A divisão da Bíblia em três partes foi pela primeira vez mencionada no livro Sirácida (38, 34b-39,1.) no ano 190 a.C. Os Atos também falam da Lei de Moises, dos Profetas e dos Salmos.

“Os demais livros” ou Escritos: Em torno de 80 ou 90 d.C. se formou uma escola farisaica, quando se deu a origem ao “Judaísmo formativo”. A tradição fala de um encontro em Jâmnia por volta do ano 90 d.C. que foi decisivo para a posterior identidade do judaísmo. Atribuí-se a esse “Sínodo” o cânon da Bíblia hebraica:
            Os Salmos: Nos Salmos o povo louva e pede a seu Deus vida e guia no caminho.
: O Israel  resiste a um novo Deus que arbitrariamente distribui vida ou morte
Os provérbios: recolhem a sabedoria do povo.
Os cinco Rolos: Rute, Cântico, Qohélet, Lamentações, Ester.
O Apocalipse de Daniel demonstra a resistência contra o Império Helenista;
              Esdras e Neemias e os livros Crônicos.

Outros escritos ficaram fora do Canon, chamados Deuterocanônicos
           Ester grego, Judite, Tobit, Macabeus, Sabedoria, Sirácida, Baruc, Epístola de Jeremias.

1.     - OS  SALMOS      

Os Salmos, a coletânea dos louvores, encabeçam a 3ª seção da Bíblia. Os Salmos são divididos em cinco partes como o Pentateuco e foram reunidos em um só livro, provavelmente no fim do III século a.C. Os Salmos foram rezados ou cantados na liturgia ou em casa.  
             O livro dos Salmos – manifestação sublime da religiosidade de Israel – não incorporou a experiência religiosa oficial do Judá do segundo templo,
Os cinco livretes de oração que formam esta coleção não são livros do templo, dos sacerdotes, eles são livros do povo: um pequeno Pentateuco popular, no qual se conserva e celebra a memória do verdadeiro rosto de Deus, de sua ação libertadora, de sua paixão pelo povo, pelos pobres, pelos últimos, pelos justos que amam a sua lei e a põem em prática com todo o coração. Justamente porque o povo costumava cantar, rezar, suplicar com estas palavras, ninguém, nem o sumo sacerdote, teve a força de mudar e distorcer, de interferir neste pequeno patrimônio que o povo tinha decorado e que guardava com todo cuidado em seu coração.   
2. – JÓ

No Império Persa Jehuda com Jerusalém tinha autonomia em relação à própria religião e seus costumes. Os sacerdotes Sadoquitas tinham o poder interno, porém  ficaram politicamente dependentes dos Persas. Os Gregos não deram autonomia relativa às províncias e submeteram totalmente os territórios ao seu império por sua língua, - todo o mundo começou a falar o grego - filosofia, religião, ética e organizarão política. A brutalidade dessa nova era mostra-se finalmente na profanação do templo e da instalação da estátua de Zeus-Olímpico (1 Mc  1,41-47 e 2 Mc 6,1-11) Deus apresenta-se como Deus da classe dominante, ele é um Deus tirano, que não escuta mais o grito do povo (Jó 24, 1, 12).  O livro de Jó é o protesto contra esta alienação pelo Helenismo ao nível teológico, o livro de Daniel protesta contra o Helenismo ao nível político.
        O novo Deus em Jehuda: Em lugar do Deus da aliança este novo Deus tirano (eloah, shadai) põe destino na história do homem: sorte ou azar, graça ou desgraça. Isto é fatal e mortal.
 Os amigos de Jó tornam-se  inimigos, acusadores como Satã. Sofrimento é castigo de Deus pelos pecados.
O discurso de Eliú  é uma inversão de Elias (Eijahu:  ele encoleriza-se igualmente contra seus três amigos, porque eles acharam que Jó (não Deus) é criminoso. Os argumentos de Eliú: Deus humilhou Jó, sem razão, por nada. É assim, precisa aceitar. Deus deve ter razão pedagógica: não importa se Jó é pecador ou não.
 Até Javé, no seio da tempestade, interroga Jó, mas não é  o Deus da aliança, ele mudou em um Deus estranho, ele é o Onipotente, o Shadai.  No seu interrogatório ele não dá respostas às perguntas de Jó.   (38,1- 40,2).
 Jó defende a República da Torá   Jó não quer aceitar tal verdade porque ele é um homem “comprovado na verdade e na justiça” e se levanta e protesta em nome da Torá.  Única coisa que Jó pede: que Deus admite sua inocência: sua integridade seja publicamente reconhecida. O livro de Jó é um forte grito de resistência.( Ribla 45 p. 86)
              O sentido da palavra ypomone: paciência ou resistência
Só a carta do Tiago menciona o Jô (5,11) e fala da resistência dele. A palavra grega “ypomone” designa a resistência aos perigos que ameaçam... (Veja Lucas 8,15 e a explicação da TEB, Paolo Richard no “Apocalipse traduziu este verbo por resistência p. 211).
No livro de Jó aparece a palavra resistência: 2,3; 2,9; 6,11; 9,4; 27, 5-7;

              O que se deve fazer: se manter longe do mal ou aceitar?  A TEB traduz: ”Sempre aceitamos a felicidade como um dom de Deus. E a desgraça? Por que não a aceitaríamos”?  Mas os males não vem de Javé, eles vem do Satanás. O hebraico fala: “Sim os bens aceitamos de Deus, e os males não aceitamos” (2, 10) A  palavra ”gam” que significa: “também” ou “sim  ou “sempre”, é uma afirmação e não uma condição “se”. A conjunção “v” que significa “e” que liga a segunda parte da frase com a primeira. O “e” não é uma pergunta (por quê?).   Podemos traduzir o “e” por “mas” e dizer assim: “Mas os males não aceitamos”. Na segunda parte da frase não se menciona Deus, porque os males não vêm de Deus, eles vêm do Satã.
No final Jó responde a Javé:   “Por isso, eu largo tenho meu consolo  sobre o pó e a cinza”. A maioria dos tradutores fala no final (42,1 - 6): “Tenho horror de mim e retrato-me  arrependo”.   Jó depois tantas queixas e argumentos   se submete a este novo Deus?  Não!
 Temos dois verbos; ma’as e nacham:  Ma’as significa: largar, jogar fora, arremessar, rejeitar.  No cap. 9,21 ele falou este verbo: ”viver me repugna” (TE
 Nacham significa na forma ativa: consolar, (2,11; 16,2; 21,34; 29,25; 42,11; 7,13;). Em 7,13 Jó tinha falado: “Se digo: “minha cama me consola e meu leito aliviará o meu lamento aterrorizas-me com sonhos.”. Nacham significa na forma reflexiva: se consolar ou estiver farto, “tenho meu consolo sobre o pó e cinza”, não mais sobre ¨minha cama¨.
  Deus se converte a Jô: “E Javé converteu o regresso de Jô” (42,10)

 3º - OS PROVÉRBIOS
             Os Provérbios de Salomão não foram todos escritos por um mesmo autor nem pertencem à mesma época.   O templo, os sacrifícios, as leis da pureza dos sacerdotes sadoquitas não aparecem. Os provérbios querem dar a conhecer a sabedoria, a educação em hebraico é uma disciplina baseada em castigos. Mas a correção acontece também mediante exortações. Diretrizes e apelos à razão.
 A partir 7,1  A Dona Sabedoria é apresentada como mulher personificada: “Dize à Sabedoria: Tu és minha irmã”. Ela está chamando (8,1), “Eu, a Sabedoria” (8,12). Ela construiu sua casa com sete colunas e convida: “Venham comer do meu pão e beber do meu vinho” (9,1-6). “Casa e patrimônio são herança dos pais e a mulher, de bom senso é dom de Javé”.
 No final aparece a sabedoria incorporada numa mulher de valor, é um cântico alfabético.  (31, 10-31
 4º - OS CINCO ROLOS
O lugar dos cinco rolos é muito instável (Cânticos, Rute, Lamentações, Eclesiastes, Éster). Todavia, em razão do costume de lê-los nos dias de festa (Cânticos na Páscoa, Rute em Pentecostes, Lamentações no aniversário da queda do Templo, Eclesiastes na Festa das Tendas e Éster na Festa de Purin), passou-se a justapor nos livros manuscritos e posteriormente nas primeiras Bíblias impressas.
Primeiro Rolo: RUTE:
A época de Esdras conviria muito bem ao relato, favorável à causa dos matrimônios dos  estrangeiros contra as reformas rigorosas de Esdras e Neemias.
Rute é um livro da mulher por excelência: “Uma luta de sobrevivência de duas mulheres num mundo patriarcal e antes de mulheres pobres num mundo perigoso, mulheres como vítimas”. Está questionada, se o início ”Certa vez, no tempo dos juizes” e a genealogia 4, 18-22 com relação a David pertencem ao texto original. A genealogia quer revitalizar a importância de David.
   Segundo Rolo:  O CÂNTICO DOS CÂNTICOS
     Vê-se no Cântico a tradição de uma liturgia pagã do Oriente Médio em honra de uma deusa que busca seu querido num mundo inferior e o tira de lá, uma ressurreição, que é como um novo nascimento (8, 5-7). “Meu querido é meu e eu sou dele” (2, 16 e 6,3) representa talvez uma fórmula mais antiga do casamento.
                 O Cântico dos Cânticos contém estilo e linguagem da época helenística. Poderia ser um comentário do livro Qohelet, porque elogia o amor da amada e do amado. A pessoa central é a amada, que vive no campo, num paraíso e busca seu amado na cidade que representa poder, lei, templo, o Império Helenista. O uso litúrgico na Páscoa não é atestado antes do século V d.C.     Ribla 37 p 70 - Enilda de Paula Pedro e Nakanose.
Terceiro Rolo:  A QOHÉLET ou ECLESIASTES

a)      O contexto político: Os  Ptolemeus Gregos no Egito: Tudo parece novo!
            De 320 a 200 Judá é submetida aos Ptolomeus gregos no Egito.  O sol representa este Império. O que é de novo? Uma nova teologia: a filosofia  grega  criou uma nova imagem de Deus: um só Deus no céu, um só imperador na terra. Um novo modo de produção: o escravagismo, com sua fundamentação filosófica e racista que privilegia o ´grego´ contra o ´bárbaro´.  Uma nova antropologia: alma é eterna, o corpo perecível, o homem domina a mulher, o dono o escravo, o pai o filho, a sabedoria está a serviço dos grandes.
b) Qohélet vem do hebraico qahal: a assembleia, Eclesiastes vem do grego  ecclesia:  a igreja. O livro foi lido nas festas das tendas (Setembro e Outubro).Qohélet insiste contra estas tendências e fala: debaixo do sol, dos Ptolomeus,  nada de novo.  No hebraico a palavra Qohélet é feminina, Qohélet é nada mais do que uma pessoa presente na reunião (qahal), ela não tem tarefas, ela é insignificante, justamente o que seria uma mulher na sinagoga judaica, uma mulher calada. Ela fala três vezes: ¨Vaidade das vaidades diz Qohélet¨ 1,2; “vi tudo; tudo é fumaça”.                    
  Vaidade das vaidades, hebel (1,2)   O livro começa com a palavra ¨Hebel¨(1,2)  que significa: sopro, vento, vazio, inútil, instável, pouco duradouro. Hebel é “fumaça, vento, ilusão”, é “nada” é “vaidade”. Hebel é Abel: existe um Abel, porque há um Caim que mata: o império helenista (Caim) mata o povo judaico (Abel).
              A fadiga de Adam (1,3) (amal):  Que proveito tira Adam, o ser humano, de toda sua fadiga com que se afadiga debaixo do sol? Já os Gregos sabiam que uma das piores punições era trabalhar inutilmente. O exemplo é Sísifo, que devia rolar uma pedra até o topo de uma montanha, mas depois a pedra rolou sozinha para baixo. Sempre precisava começar de novo. Sísifo devia trabalhar no inferno, Qohélet fala deste mundo.
              Que proveito  (yithron)? Que proveito de Adam (yithron)? A frase “proveito de seu trabalho” benefício, ganho, superávit, vantagem é exclusiva de Qohélet e aparece 9 vezes no  livro (3,9; 5,15).
             Coração contra a alma eterna A Qohélet critica a filosofia grega que considera a alma como  eterna e domina o corpo. Qohélet ao contrário fala de “Nefesh” que não é espiritual, mas material, é a garganta, o gogó. A coisa mais triste seria, se a gente não engole 4,8 e 6,2.  Quarenta vezes o livro fala do coração e não da alma,
 Crítica à retribuição, aos sacrifícios e votos, Qohélet critica a tese clássica da retribuição temporal (3,16-22; 7,15-18). Há sorte igual para justos e malfeitores (8,14; 9,2;) O que fazer na casa de Deus: Escutar antes que para ofertar o sacrifício (4,17;) melhor não fazer votos (5,4;)
            Finalmente uma perola da Literatura: 11,7 – 12,7.. Os membros do velho se comparam com uma casa, os guardas são as mãos, moer alude aos dentes, o ruído do moinho são os ouvidos, a amendoeira florescendo de branco são os cabelos, o gafanhoto e a alcaparra aludem aos órgãos sexuais e ao prazer. Como o cântaro quebra na fonte, o coração quebra na morte. “O pó volta à terra, o sopro volta a Deus que o concedeu”. 

               O quarto Rolo: LAMENTAÇÕES
            Os quatro primeiros poemas são alfabéticos. Eiká = como? ou oh!
O quinto poema termina com uma oração: “Nossa água, bebemo-la a troco de dinheiro” (5,4), “Cai de nossa cabeça a coroa, oh, infelizes de nós, pecamos” (5,16) “faz-nos voltar a ti Javé e voltaremos” (5,21).
            As lamentações se rezam no 5º mês do ano, começando com a Páscoa, lembrando a destruição do primeiro e - que coincidência - do segundo templo.

    O quinto Rolo:  ÉSTER:
Numa espécie de conto o livrinho inspira-se no Êxodo, aqui revisto em clima de resistência dos judeus na Diáspora. Éster, a beleza feminina vence o poder masculino desmascara o abuso do poder dos privilegiados (entre 200-150). A atitude preconizada por Haman em 3,8 foi a do Antíoco IV Epífanes no ano 167. O livro deve ter sido escrito no mesmo tempo que o livro de Daniel.
O rolo se lê na festa de Purim, fevereiro e março, o dia em que os Judeus obtiveram dos seus inimigos o repouso, a inversão da sua calamidade: a passagem de tormento para alegria, de luto para festa, de pogrom para libertação, de Shoa para uma vida nova.
                
5.  DANIEL  (Deus meu juiz) Esdras, Neemias,Crônicas
            Situação histórica:
Os Persas deixaram as suas províncias com autonomia religiosa, o Império helenista controlou tudo: ”Ordenou o rei que em todo seu reino todos os seus povos formassem um único povo e renunciassem aos seus costumes”.  O ouro representa o único deus, “Vos prostrareis e adorareis a estátua de ouro” (Dn 3,1-5). ”Há judeus... que não servem a teu Deus e não adoram a estátua de ouro” (Dn 3,12)
A redação final do Livro de Daniel foi ao tempo de Antíoco IV Epífanes (175 -164) que se refere a fatos históricos:  O autor conhece a profanação do Templo (167 a.C.), refere-se aos primeiros sucessos da revolta macabaia (11,34). Jasão comprou o sumo sacerdócio, até então hereditário (2Mc 4,7-10; 4,24;). É vendido a quem dá mais. Antíoco castiga Jerusalém por causa de uma revolta. Em 167 promulga um decreto, ordena-se a abolição do culto no templo e a anulação da lei judia. Foi erigido no templo o altar do deus Zeus (ídolo abominável (Dn 11,31). Sobre o procedimento de Antíoco informam 1 Mc 1,41-63 e 2 Mc 6,1-42.
Pequenos círculos de piedosos, que se opõem contra os helenizantes, transformaram-se em grupos de resistência, os chassidim (1Mc 2,42), Daniel os chama ¨maskilim¨, atentos, iniciados, mestres.
 Surgiu um novo modo de crítica: a Apocalíptica  (des-ocultamento ou revelação) que é uma teologia de resistência, expressão de uma nova ¨piedade da pobreza¨ com uma grande força revolucionária
Daniel tem um sonho cap. 7: No sonho de Daniel os Impérios são feras que surgem do mar (símbolo do mal): Babilônia é um leão, os Persas são leopardos. A fera medonha, que surge depois, significa o império de Alexandre, os 10 chifres são os Selêucidas, o chifre pequeno é Antíoco Epífanes. O Império Helenista é uma fera medonha, terrível e forte, com olhos humanos e uma boca que falava com arrogância. Os olhos são os cúmplices de Antíoco, a boca são os decretos dele.
 Apresentando o julgamento Daniel segue os traços de Ezequiel: tem o trono, relâmpagos, um ancião com cabelos brancos (avançado em dias) milhares que serviam e os livros foram abertos: a quarta fera foi aniquilada, das outras feras foi tirado o poder, para elas sobra só um tempo limitado.
Outro sonho de Daniel: dentre as nuvens alguém como o Filho do homem chegou até perto do Ancião: o seu Reino é para sempre, não tem limites. Ele representa os Santos do povo do Altíssimo. O conceito do filho do homem aparece em Q e nos Sinóticos, também no conceito da ressurreição, são conceitos apocalípticos. A crítica radical a todos os Impérios reaparece no Apocalipse de João.

ESDRAS  E NEEMIAS, CRÔNICAS
Para analisar este presente do livro de Daniel precisava uma retrospectiva: olhar o passado, a época Esdras e Neemias com a promulgação da Lei, e fazer uma releitura do Deuteronomista até o início de Israel, agora sob a ótica dos Cronistas.

           As Crônicas descrevem o início de Israel até o edito de Ciro, Esdras/Neemias relata o pós-exílio. A redação remonta de uma época 350 até 330. O autor se chama Cronista.


 OS DEUTEROCANÔNICOS


Entre 80 e 100 d.C. os mestres judaicos de obediência farisáica excluíram os Deuterocanônicos da lista oficial (Canôn) em Jâmnia: Ester (grego), Judite, Tobit, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Sirácida, Baruc, Epístola de Jeremias.
             Judite: Uma novela subversiva: a viúva Judite quer chamar os diferentes grupos para a verdadeira aliança. Ela mora em Bet-úlia (casa de Deus), localizada na Samaria. É o tempo da dinastia dos Asmoneus 142 a.C. O livrinho está escrito em grego, um midrash ou um comentário à Torá, no qual um núcleo, que pode ser real, é tratado com muita liberdade, pode se falar de parábola (TEB).
Tobit e Tobias: Por meio da história de Tobit e Tobias, deportados para a cidade Ninive, deportados típicos, o autor quer fornecer aos seus irmãos isolados um ensinamento religioso. uma romance popular, inspirada na tradição sapiencial.  A observação das numerosas analogias com Sirácide pode dar visos de probabilidade a uma data situada por volta de 200 a.C. (TEB)
Sirácida: O autor se chama Ben Sirac e vivia por volta de 200 a.C. em Jerusalém, sua obra remonta a 180 a.C. Ben Sirac foi um escriba tomado desde a juventude pelo amor à lei e preocupado em comunicar os frutos de sua meditação aos outros, até abrindo uma escola (51,23). Tem devoção evidente ao Templo, ao sacerdócio e ao culto 50,1-24.
1.     Macabeus:
             O autor é um judeu, o original do livro é semítico e escrito em volta de100. O tema é a resistência contra a nova cultura helenista. Quem salva Israel, é “o céu“, não se fala de Deus.
              2.  Macabeus:
              O autor do segundo livro é um judeu da diáspora, ele não identifica a religião com patriotismo, a data da carta mais recente corresponde a 124 a.C
Com ajuda de Roma os Macabeus  ganham  independência dos Selêucidas, os Sírios 142 - 64:  Os Asmoneus são reis e sacerdotes na mesma pessoa, o que os chassidim (partido da Torá) não aceitaram.  Os fariseus e o outro grupo dos Essênios se separaram dos Macabeus e se retiraram para o deserto esperando um messias. Os Romanos se aproveitaram dos Macabeus para apaziguar a Síria.                  No ano 64 em Antioquia Pompeu rebaixou a Síria a província romana e  tomou Jerusalém no ano 63 a.C. Judá recebe o nome Palestina pelos Romanos
  
Sabedoria
O livro foi escrito em torno de 50 a.C. O autor é um poeta, que conhece profundamente os textos bíblicos, sem usar muitas citações. Ele conhece a filosofia grega, parece conhecer Homero e Platão. Seus pensamentos são característicos dos judeus alexandrinos.
A justiça é o ideal israelita, os justos esperam a imortalidade (3,4), pela primeira vez surge a imortalidade, um termo da filosofia grega.
A imortalidade da alma dos justos parece dar uma resposta às perguntas de Jô: as almas (3,1-12)  perseguidas na terra gozam de tranqüilidade perfeita junto de Deus e no dia de juízo serão com Deus.  A doutrina da ressurreição corporal (Dn 12,2 e 2 Mc 7,9) parece presente em 3,7 e 5,15.            
Personificação da Sabedoria: O autor retoma o texto dos Pr 7 - 9.  A Dona Sabedoria é artífice (construtor) do Universo (7, 22), ela é uma esposa ideal (8,2) A Sabedoria prefigura a Espírita Santa (1,6; 7,7.22-23; 9,17). Ela ensina moderação, prudência, justiça e coragem, que são as quatro virtudes gregas cardeais, a única citação na Bíblia.



IV    O Secundo Testamento

História: O judaísmo sob os Romanos

            A ideologia grega reaparece no mundo romano. Porém aparece a Gnose do Oriente que influirá o Judaismo e também o cristianismo. “O cristão pertence à transcendência e está acima da matéria, do tempo, do movimento; o homem é cativo do corpo. A vida é um caminho em comum do corpo e da alma e a morte causa sua separação;” (Ribla 58, p. 90)
Os Romanos são os novos donos do mundo, representado pelo “César” em Roma, venerado no Império como o “Senhor e Deus”, como Filho de Deus.
A “Paz Romana” só foi obtida pelas as forças militares. Neste império quase 90% da população é escravo. O Apocalipse nos mostra Roma como a grande cidade “Babilônia”, “a besta”, cheia da riqueza das nações (Ap18, 9-19).
Quando os Romanos ocuparam os antigos estados de Israel e Judá deram à este região o nome Palestina, derivada da Filisteia.

                Jesus nasce no tempo de César Augusto. Entrando na
adolescência Jesus vivenciava várias insurreições, 2000 rebeldes foram crucificados pelos romanos ao redor de Jerusalém. Com 30 anos ele anuncia o Reino de Deus aos pobres. Deus é Pai desses pobres, ele mesmo se chama o “Filho Humano”, não prega uma revolução contra o Império Romano, mas foi tão perigoso que os sacerdotes o entregaram ao governador Romano Pôncio Pilatos que o deixou crucificar.

                Várias revoluções provocam os Romanos a destruir Jerusalém no ano 70 d.C e mais uma vez 134 d.C. Os judeus não podiam mais morar em Jerusalém. Os fariseus ficam como única expressão do judaísmo. O centro deles se muda para Jâmnia ou Jabne, onde eles determinam o cânon da Bíblia, por volta do ano 80 d.C.
2.
22.

A igreja no Império romano

          A palavra “Igreja” Ekklesia (Qahal: Assembléia dos filhos  de Israel), aparece pela primeira vez na carta aos Tessalonicenses, o primeiro documento escrito do Novo Testamento (1 Tess. 1,1), no ano 50/51: igreja dos Tessalonicenses, igreja de Jerusalém (At. 11,22), de Antioquia (AT 11,26).


                As igrejas que Paulo fundou: Paulo não conhecia a vida, palavras e os fatos de Jesus, por isso fala só da morte e ressurreição do Senhor e da sua vinda gloriosa. O que atraiu o povo de Tessalônica e Filipe foi o Evangelho de Deus: “esperar do céu  seu Filho, que ressuscitou dos mortos”, Jesus, que nos liberta da ira futura (1 Tess. 1,10). Deus manifestará sua ira contra a injustiça. Antes de o fazer, Deus enviará seu filho que salva os crentes, uma linguagem com ressonância política.
                As cartas de Paulo são os primeiros documentos do Novo Testamento: 1+2 Tessalonicenses, Filipenses, 1+2 Coríntios, Gálatas, Romanos. As epístolas aos Efésios e, Colossenses e as epístolas pastorais são consideradas como posteriores a Paulo. Na carta aos Efésios 4, 11-12 encontramos os primeiros ministérios dentro da igreja.

                Lucas escreve o Evangelho e os Atos dos Apóstolos a um tal Teófilo (aquele que ama a Deus), uma pessoa anônima, que provavelmente representa o mundo do império Romano. Por isso ele tenta desculpar os Romanos da morte de Jesus e joga toda a culpa sobre os Judeus.                

O SegundoTestamento começa com a formação das comunidades, primeiro na Palestina, em Galileia e Jerusalém no mundo judaico, depois no Império Romano com a linguagem e a filosofia helenista. O extremo Oriente não estava presente.
O primeiro documento do NT é a carta de Paulo aos tessalonicenses no ano 51 .Os fies esperam a vinda do Senhor. Mais tarde aparecem os Evangelhos.  Não por meio de profissões, hinos ou títulos, mas por meio de uma narração Marcos criou um Evangelho, Mateus vive no meio de judeu-cristãos. Lucas se dirige ao Império, João é o Evangelho do discípulo amado.  Não são fatos históricos, dos quais se pode fazer uma síntese (sinopse), mas boas notícias para comunidades em diferentes situações e tempos.


                A IGREJA EM ROMA:

             A origem desta igreja romana é mais desconhecida. A relação entre Roma e Jerusalém estava estreita já desde o tempo de Herodes e 000 Judeus. Os judeus gozavam de vários privilégios:  podiam reunir-se, coletar dinheiro para o templo, não prestavam serviços militares e tinham seus próprios tribunais. O império tinha cerca de 80 milhões de habitantes e uns 10% eram judeus. A igreja nasce provavelmente nos anos 40 pelos missionários de Jerusalém. (Ribla 29p. 142)

Seutônio um historiador, conta que o imperador Cláudio expulsou de Roma judeus que provocaram tumulto por causa de um “Cresto”, 49 dC.  Não sabemos nada, quando Pedro chegou a Roma, com certeza não foi bispo em Roma. A lista dos bispos de Roma é uma visão errônea.
Paulo escreve sua carta aos Romanos em Corinto 54/55 dC. a uma igreja judeu-cristã. Na carta aparecem 29 nomes, deles 6 homens e 7 mulheres têm uma responsabilidade ministerial (Rm 16,1-16).
O Imperador Nero mandou incendiar Roma e culpou os cristãos (assim escreve Tácito). Foram executados com tormentos. É seguro que Pedro e Paulo morreram mártires em Roma entre 64 e 67.


             AS IGREJAS NA ÁSIA MENOR:

            A Ásia menor foi berço e centro do culto ao imperador. A ideologia do império culmina na paz dos deuses, no imperador: “Senhor e Deus”. Para as comunidades é o diabo que busca a quem devorar. O Apocalpse conta a  derrota do Império Romano.

       O imperador Augusto 29 a.C. concordou na edificação de uma estátua sua para ser venerada, o culto a Augusto era o mais antigo culto imperial romano na Ásia. Tibério (14-37 d.C. não aceitou honras divinas, Calígula (37-41) exigiu ser tratado como um deus. Nem Cláudio (41-54) nem Nero (54-68) foram oficialmente aceitos entre os deuses ainada em vida. Vespasiano (69-79)retomou as formas do culto do imperador, somente um imperador divinizado após a morte tornava-se um dos deuses do império. Domiciano (81-96) exigiu ser chamado “Senhor e Deus”. O culto ao imperador não só era celebrado nos templos, mas também em outros espaços públicos. Era uma expressão de lealdade ao império. Entre os anos 1 d.C. até 150 mais de 140 templos foram construídos na Ásia menor.

       AS COMUNIDADES DE GALÁXIA, PONTO E BITÍNIA:

 A 1ª carta de Pedro se dirige a esta região, o último documento do Novo Testamento. Esta carta tem duas partes 1- 4,11 e 4,12 - 5,11. Pode pensar nos tempos finais do Imperador Domiciano, um tempo tranqüilo; mas nos anos 93 –96 há uma crise política, começa a perseguição dos inimigos e  uma luta para impor melhor o culto ao imperador endeusado.
            A carta de Pedro é dirigida aos “estrangeiros residentes”, vivem “fora do povo”  são agora ”povo de Deus”, eles não têm casa, ficam fora deste sistema, são “paroicos” (paróquia) “fora da casa” Estas comunidades se estendem no campo rural. Plínio o Jovem, 20 anos depois, chama elas uma “multidão de pessoas”. Esta “superstição perversa e desmedida” sacode a ordem; os templos pagãos foram descuidados, não há compradores da carne dos sacrifícios...A atividade dos cristãos: reuniões matinais de louvor e a comida noturna em comum. Nas reuniões matinais os presentes reiteram um compromisso (Plínio usa a expressão sacramento) que não os obriga a nenhum crime, mas a manter um comportamento distante do roubo, do adultério, da infidelidade. Surge a promessa de não renegar o “depósito”, quando forem interrogados (coincide com 1 Pedro 3, 3, 1-11). A comida deles é comum, é “promiscum”, não se faz distinção entre origem, raça, lei, pai... Isto levanta suspeita e Plínio deixa prender duas escravas, chamadas “ministras” pelos cristãos. Parece que não tem ordem hierárquica nestas comunidades. Plínio relata ao imperador que tem listas sem assinaturas, que acusam os cristãos. (Ribla 29, p 100).

 O EVANGELHO DE MARCOS


Tem sido comum pensar que o Evangelho de Marcos foi escrito em Roma entre 66-70.Menciona-se um João Marcus nos Atos 12,12 e 15,37, também 1 Pedro 5,13. Portanto pensa-se cada vez mais, que o texto original foi escrito na Síria Palestina. Durante muito tempo a Exegese, (interpretação da Bíblia,) ignorou a Galileia como o berço do cristianismo, só uma leitura reducionista dos Atos e de Paulo pôs a origem do cristianismo em Jerusalém e nas cidades helenistas. A valorização do documento Q e do Evangelho de Marcos e sua localização histórica na Galileia e no Sul da Síria antes do ano 70 renovaram o estudo das origens do cristianismo, dos “radicais itinerantes”. (Ribla 22) Galileia é o lugar do Evangelho que está contraposta a Jerusalém
Não por meio de profissões, hinos ou títulos, mas por meio de uma narração Marcos criou um Evangelho. É uma narração subversiva a partir dos vencidos e não dos vencedores na história. Jesus, o homem de conflito, está ao lado da massa excluída, oprimida e perseguida e opta pela vida como exigência do Reino do Pai. Não é um simples relatório, mas uma narração teológica, que convida para o seguimento na perseguição do Império. Devemos realizar que a multidão na Galiléia sofre de  opressão, de fome e doenças.
            Finalmente existe uma polemica contra o grupo dos “Doze” e contra a família de Jesus. Todos vão para o lixo, fugiram abandonando Jesus (14,50). A polémica, sutil e aguda, se dirige contra a liderança em Jerusalém.

No inicio do Evangelho o reino de Deus se aproximou (1,15). Como entrar no reino? (9,1;47 e 10,14 e 10, 23-25). Marcos destaca que são praticas bastante simples. No final só se espera o reino (15, 42).
            O Evangelho é uma tentativa de linear os diversos Cristianismos sob uma só luz que é a sombra da Cruz. É o Evangelho cristão.
            É um texto “apocalíptico” se fala muito “de uma vez”, não usa o passado, mas o presente histórico. “O Filho do homem”, sentado a direita do Todo Poderoso (14, 62) refere-se a Daniel.
            O “deve” (8,31; 9,11; 13,10) reflete um processo sócio-político, necessário e inevitável e certamente convulsivo, pelo qual se alcança outra realidade nova.

Resta de mencionar que o testamento de Jesus e o mandamento da missão universal acontecem na Galileia (Mt 28,16-20). O que fazem agora estes galileus em Jerusalém? Nos Atos são claramente classificados como homens de Galileia (At 1,11). Em At 24, 5 Paulo é apresentado pelo Sumo Sacerdote Ananias como “um dos lideres da seita dos nazarenos”. (Os judeus e os muçulmanos chamam os cristãos de “nazarenos”).
(Carlos Bravo Gallardo: Jesus, hombre em conflito, Sal Terrae 1986 , Santander)

O Evangelho de Mateus


¨Existe consenso, atualmente, que o Evangelho de Mateus foi escrito na cidade de Antioquia nos anos 80 d.C. Seu autor seria um escriba judeu-cristão, helenista... (Antioquia era a terceira major cidade do Império Romano).
No ano 70 Jerusalém foi arrasada pela guerra judaica contra Roma. O único grupo que se salvou foi os dos fariseus... Estes rabinos fariseus fundaram a Academia ou Sinédrio de Jâmnia ou Jaíne, nasceu aqui o chamado judaísmo rabínico que se apresentou como a única reconstrução autêntica e legítima da tradição de Israel depois da crise do ano 70...
O movimento de Jesus procurou reconstruir a tradição de  Israel de uma forma alternativa e diferente do judaísmo farisaico. Jesus era o Messias e Filho de Deus...os cristãos de Antioquia entraram em conflito com as sinagogas e chegaram a sofrer uma aberta perseguição. Neste clima nasceu o Evangelho de Mateus¨. (Ribla27 p 8-9).
Mateus  se refere ao Evangelho de Marcos e à fonte ¨Q¨
Sua intenção é mostrar a passagem de Israel (am) para os povos (gojim).
O Evangelho termina com a missão para  todas as nações, sejam judeus ou gentios (28,16-20).

   O EVANGELHO DE LUCAS         

No Evangelho Lucas usa como fonte Marcos e a fonte Q. A genealogia começa com Jesus e volta atrás até Adão, filho de Deus (Lc 3, 3,22-38;), índice que o Evangelho se dirige ao mundo intero, neste caso ao Império Romano.
O nascimento de João e Jesus acontece em Judá, lá moram os parentes de Maria, Zacarias é sacerdote do campo. Jerusalém tem papel importante. Mas Jesus nasce em Belém, cidade de David. Os pastores representam os pobres (Lc 1 e 2).
Nazaré é o primeiro lugar da confrontação com os fariseus: Jesus ungido com a Espírita Santa foi comparado com Elias e Eliseu e muda para Cafarnaum (Lc 4,16-32).
Os doze discípulos recebem o nome apóstolos ((6,13).
                           Num lugar plano se reúnem muita massa de Judá, Jerusalém, Tiro e Sídon  para escutar Jesus:
  ¨Felizes  os pobres, ai dos ricos¨.(Lc 6, 17-26). Jesus desperta um jovem em Naim, lembra o profeta  Elias (7,11-17) Jesus exulta sob a ação da Espírita Santa (10,21),  dá a Espírita Santa àqueles que                       pedem (11.13).
Preferência pelas mulheres: a pecadora e mulheres que acompanham Jesus ( 7,36-8,3; Marta e Maria 10,38; uma mulher 11,22; a viúva 18,1).
 Herodes perplexo sobre Jesus ( Lc 9,7), quer matar Jesus (13,31), enfrenta Jesus  (23,6).

A partida de Jesus para Jerusalém (Lc 9,51-19,28) para ser arrebatado como Elias, passando por Samaria. O samaritano (10,29); o leproso é um samaritano (17,11). Quase toda a caminhada é própria de Lucas. O tema central desses capítulos é a advertência contra o dinheiro e a riqueza.

Em Jerusalém na crucificação: Pilatos convocou os sumos sacerdotes, os chefes do povo (não o povo), o povo não participou da condenação (23,13) Jesus pede perdão, eles não sabem, o que fazem (23.34). O povo ficava olhando (23,35). Jesus adverte as filhas de Jerusalém (23,27-31). Um dos rebeldes pede a Jesus (23,42). Jesus entrega o seu espírito (23,46).
O túmulo vazio: as mulheres, os discípulos de Emaús ( (24,13-35), aparição aos Onze (24,36-49) o arrebatamento, parece no mesmo dia (24,50-53).


   O Evangelho de João

            O documento mais antigo do Novo Testamento é um fragmento do Evangelho de João, já no inicio do 2º século encontrado no Egito: 18, 31-33 e 18, 37-38. O Evangelho existe antes de 130 d. C; é o resultado da chamada “escola joanina”. O autor das raízes do Evangelho deve ser o “discípulo amado”, conhecido pelo sumo sacerdote, que tem forte interesse por Jerusalém.

          Os destinatários são as comunidades na Ásia Menor, onde o culto ao Império é forte.

              Os autores do 4° Evangelho são pessoas anônimas, certamente são lideranças das comunidades. A edição final terá sido pelo ano 110. Juntaram-se discípulos de João Batista, samaritanos e helenistas. Eram igrejas pobres e frágeis. Betânia significa casa dos pobres. Maria Madalena teve um papel destacado, Betesda significa casa da solidariedade. Por volta do ano 90, teria havido uma primeira redação. No final da década de 90 foram incluídas os cap. 15 a17. Pelo ano 110 acrescentaram o Prólogo, 6, 67-71 e o Epílogo cap. 21. (Gass,8 p.122


   O Apocalipse de João

1)                 O Apocalipse nasce em tempos de perseguição, de caos, de exclusão e de opressão constante, permite à comunidade cristã reconstruir sua esperança e sua consciência, transmite uma espiritualidade de resistência.

2)                 que fundamenta suas raízes na história do povo de Israel e no movimento profético-apocalíptico no qual nasce o movimento de Jesus. O Apocalipse cumpre na igreja uma função crítica e de resistência frente à helenização do cristianismo.

3)                 O fato central é a morte e ressurreição de Jesus. O Apocalipse não está orientado para a “secunda vinda de Jesus” ou para “o fim do mundo, mas está centralizado na presença de Jesus ressuscitado.

4)                 O Apocalipse é um livro histórico, que possui duas dimensões: uma visível que é a “terra” e uma invisível que é o céu. É uma só história que se realiza simultaneamente no céu e na terra. A utopia não se realiza além da história, porém além da opressão.

5)                 O Apocalipse é revelação (desocultamento) da presença transcendental e libertadora de Cristo ressuscitado.

6)                 O Apocalipse se expressa através de mitos e de símbolos. O mito é histórico e busca identificar e mobilizar a comunidade. O mito está sempre disponível a novas interpretações.

7)                 As visões não só devem ser interpretadas, mas também contempladas e transformadas em ação.

8)                 O ódio e a violência que expressam a situação-limite da extrema opressão e angústia para provocar uma purificação e assim transformar o ódio em consciência.

9)                 O Apocalipse de João une apocalipse e profecia que com seu Espírito profético modera e transforma os movimentos apocalípticos radicais.

10)             O Apocalipse une escatologia e política, mito e práxis. A história não está unicamente nas mãos de Deus, os mártires, os profetas derrotam Satanás, destroem o poder do mal.

            (Apocalipse, Pablo Richard, Editora Vozes Ltda 1996 p.18-22)







           



            






























                              







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